
Entre os roqueiros das novas gerações, o Pink Floyd é o ponto de partida em comum para muitas pessoas que começaram, como eu, a procurar sua identidade cultural dentro do rock durante a adolescência. Embora essa experiência tenha gerado uma legião de babacas - como o bêbado imbecil que berrava do meu lado ontem à noite, gritando "Chupa, Maria Rita" quando a pirotecnia do show impressionava, a grande parte de nós, fãs de rock, devemos nos lembrar do espírito que impulsionou o estilo desde o começo: a recusa em se enquadrar, a auto-afirmação - a princípio como uma parcela revolucionária da população, que hoje em dia deu lugar à auto-afirmação de cada um de nós, perdidos na multidão que sofre com as perenes tentativas de remodelagem que o mundo luta para continuar nos impondo. Foi esse o tema do assunto deste post: O show do Roger Waters, apresentando o The Wall no dia 1º de abril de 2012.
Para mim, e para muitos outros, o The Wall representa um grito desesperado que vem de fora, ecoando indiretamente nos muros em torno de cada um de nós quando gritamos junto. A obra descreve a jornada de um ser humano em seu processo castrativo ao longo da vida, desde a infância. A sociedade manda seu pai para morrer na guerra; sua mãe, destruída pelo mesmo processo, tenta evitar que o filho sofra sendo consumido pelo mesmo mundo, e sua tentativa de proteção acaba trabalhando a favor do sistema. Isso nos faz lembrar de que, apesar de a narrativa ser focada em um indivíduo, o "show" não foi feito só para ele; ele é apresentado a todos nós, há muito tempo, e todos nos tornamos "tijolos no muro", contribuindo para alienar os outros.
A escola vem para nos preparar para o mundo - e no mundo em que vivemos, isso significa apagar-se e reproduzir o que nos ensinam. Como esperar algo diferente, se nossos professores também são parte da multidão que nos cerca, sujeitos a ela como nós?
Ele encontra o amor. Infelizmente, o ser amado, a última esperança, é uma vítima como ele, contribuindo para assentar os últimos tijolos, e deixando-o sozinho atrás do muro que ajudou a construir.
Estamos na metade da história. Crescemos. O muro está erguido, o bombardeio ideológico cumpriu seu papel. Agora, lutamos tentando sair, buscando alguém que nos compreenda. Mas como encontrar isso, se todos estão presos atrás de seus próprios muros? Nos prendemos a nostalgias. Nosso amor da infância, o que aconteceu com ele? O "e se" nos preenche. Negamos que foi tudo inevitável na nossa falta de esperança de reverter o processo, buscando as últimas janelas que sobraram: as lembranças de quando a parede ainda não estava completamente erguida.
Não dura muito tempo. Afinal, "quem vive de passado é museu". O que resta? Entorpecermo-nos. Tentamos quebrar o muro dentro de nós quebrando a nós mesmos, pouco a pouco. Destruindo nossos corpos, minando a nossa consciência, rasgando janelas em nossa pele.
Cansamos da auto-destruição. Mas ainda precisamos destruir. Por fim, abraçamos uma ideologia; o martelo, o símbolo de liberdade, do desejo de quebrar o muro e da nossa frustração por não conseguir, acaba se tornando uma bandeira de ódio contra os outros. Se não resolveram por nós, vamos resolver na marra! E assim surgem os nazistinhas, que se entregam à marcha patológica pela destruição. As novelas nos mostram a face do absurdo condenando os doentes - não há outra palavra - que perseguem as minorias e realizam ataques de ódio. Mas não chegam ao centro da questão: quem produziu tudo isso! Os que apontam dedos e condenam os criminosos se esquecem de que foram parte integrante da linha de produção que construiu essas aberrações, algumas mais condenáveis e outras menos. Exaltamos aqueles que conseguem esconder seus podres efetivamente, e buscamos "justiça" perseguindo a escória da sociedade, o câncer do mundo, pedindo a pena de morte para eles. Soa familiar?
O caçador de vermes desiste da luta. Finalmente é pego, se entrega ao desespero e às tendências suicidas. Mas ele ainda tem que enfrentar seu julgamento. Como evidência de sua podridão, são chamados a depôr todas as pessoas importantes na vida do réu: mãe, namorada, professor. Assim, essas pessoas, vítimas, marionetes, algumas das ferramentas de controle que contribuíram para o momento presente, mostram a "verdade": "Ele era podre desde o início, me esforcei mas não pude corrigí-lo", diz o professor. Vejam a mulher dele! Vejam essa mulher destruída, que criatura vil poderia tê-la transformado nesse poço de ódio? E, finalmente, vejam o que ele fez com a mãe dele!
Até que vem a conclusão inevitável: "Esse muro não presta. Derruba". Se não derrubamos o muro de uma vez por todas, satisfazendo os brados da multidão que pede a cadeira elétrica, substituímos o muro podre por outro muro, dessa vez físico. Todos nós, porém, criminosos ou não, temos de derrubar o muro. Não sabemos o que está atrás dele, por estarmos dentro dele há tanto tempo. Mesmo com o muro caído, como saber por onde começar? O que faz parte do muro e o que não faz, no mundo lá fora? O que podemos aproveitar dentre tudo o que existe?
Para mim, a resposta é simples: meu muro já foi erguido, talvez já tenha caído. Não posso me salvar. Só posso lutar para que outros muros parem de ser erguidos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário